Existem mentiras graves, mentiras importantes e aquelas pequenas frases que ninguém considera exatamente uma mentira porque fazem parte do funcionamento básico da vida social.
O homem diz “estou chegando” quando ainda está procurando a chave.
Diz “vou só dar uma olhada” quando entra em uma loja.
Diz “depois eu te ligo” sabendo perfeitamente que provavelmente não vai ligar.
Não são grandes golpes contra a humanidade. São pequenas estratégias de sobrevivência social.
O curioso é que algumas delas são tão universais que praticamente não precisam mais de tradução.
1. “Estou chegando”
Essa talvez seja a mais famosa.
Você recebe uma mensagem:
“Onde você está?”
Olha para o relógio.
Você deveria estar no lugar há dez minutos.
Ainda está em casa.
Então responde:
“Estou chegando.”
O interessante é que “estou chegando” pode significar qualquer coisa entre “estou entrando no carro” e “ainda estou tomando banho”.
É uma expressão elástica.
Dependendo da situação, pode representar cinco minutos, vinte minutos ou uma completa ausência de planejamento.
E existe uma segunda versão ainda mais perigosa:
“Já estou perto.”
Quando alguém recebe essa mensagem, normalmente começa a olhar para a rua.
Não há ninguém.
2. “Vou só dar uma olhada”
Essa frase aparece principalmente quando existe uma loja envolvida.
Você entra dizendo que não pretende comprar nada.
A intenção é apenas olhar.
Quinze minutos depois, está analisando um produto que nem sabia que existia.
Trinta minutos depois, já descobriu especificações técnicas, avaliações de usuários e três alternativas mais caras.
Uma hora depois, sai da loja com uma sacola.
“Mas eu estava precisando disso.”
Talvez estivesse.
Mas há vinte minutos você nem sabia que precisava.
3. “Depois eu vejo isso”
Essa frase não encerra apenas conversas.
Ela também cria um futuro alternativo no qual todos os problemas serão resolvidos por uma versão mais organizada de você.
Tem uma conta para pagar?
Depois eu vejo.
Precisa marcar uma consulta?
Depois eu vejo.
Tem um e-mail importante para responder?
Depois eu vejo.
Precisa consertar aquela gaveta?
Depois eu vejo.
O único problema é que o futuro chega.
E o “depois” continua sendo depois.
4. “Vou dormir cedo hoje”
Essa frase costuma ser dita por volta das 21h30.
Existe uma convicção genuína naquele momento.
“Hoje vou dormir cedo.”
Às 22h15, você está assistindo a alguma coisa.
Às 23h30, ainda está assistindo.
À meia-noite, aparece um vídeo recomendado.
É interessante.
Você assiste.
Depois aparece outro.
Quando percebe, são 1h47 da manhã e você está assistindo a uma explicação de 24 minutos sobre um assunto que não tinha absolutamente nenhuma relação com sua vida.
Você desliga a tela e pensa:
“Amanhã eu durmo cedo.”
O ciclo está completo.
5. “Não estou com fome”
Essa mentira costuma durar pouco.
Principalmente quando outra pessoa pede comida.
“Não, pode pedir. Eu não quero nada.”
Alguns minutos depois, chega a comida.
Você não quer.
Claro que não.
Mas aquela batata frita está ali.
Sozinha.
Abandonada.
Você pega uma.
“Só uma.”
Depois pega outra.
Mais uma.
Em determinado momento, a pessoa olha para a embalagem e percebe que metade desapareceu.
“Você não estava com fome?”
“Não. Só estava provando.”
Uma prova bastante extensa.
6. “Eu já vi esse filme”
Existe uma técnica específica para essa situação.
Você não lembra exatamente do filme.
Mas algumas cenas parecem familiares.
Então alguém pergunta:
“Você já assistiu?”
“Já.”
Agora existe um problema.
A pessoa começa a comentar:
“Aquela parte no final é muito boa.”
Você responde:
“É.”
“E quando acontece aquela coisa…”
“Sim.”
“Você lembra?”
“Lembro.”
Você não lembra.
Está apenas tentando sobreviver até surgir uma oportunidade de mudar de assunto.
7. “Vou só descansar cinco minutos”
Essa frase deveria vir acompanhada de um aviso de segurança.
Você chega em casa cansado.
Senta no sofá.
“Vou descansar cinco minutos e depois faço isso.”
Fecha os olhos.
Quando abre, existe uma sensação estranha.
Está escuro.
Você não sabe que horas são.
Por alguns segundos, também não sabe exatamente em que dia está.
Olha para o relógio.
Passou uma hora e quarenta minutos.
O problema que você pretendia resolver continua exatamente no mesmo lugar.
Agora existe outro problema: você perdeu o sono da noite.
8. “Não vou demorar”
Essa frase é utilizada principalmente quando você entra em algum lugar onde existe a possibilidade de encontrar alguma coisa interessante.
Pode ser uma loja de eletrônicos.
Uma concessionária.
Uma oficina.
Um shopping.
Um supermercado.
Você diz:
“É rapidinho.”
Essa frase não deveria ser interpretada como previsão de tempo.
É apenas uma esperança.
O curioso é que ninguém precisa acreditar completamente
Essas pequenas mentiras funcionam porque existe um acordo silencioso entre as pessoas.
Quando alguém diz “estou chegando”, você provavelmente sabe que pode não estar chegando exatamente naquele momento.
Quando alguém diz “depois eu vejo”, você sabe que existe uma possibilidade razoável de o assunto desaparecer durante alguns dias.
Quando alguém diz “não vou comprar nada”, talvez seja melhor não fazer apostas.
A sociedade funciona parcialmente porque aprendemos a interpretar essas frases pelo contexto.
Não ouvimos apenas as palavras.
Ouvimos a intenção.
Algumas mentiras são apenas atalhos sociais
Existe uma diferença importante entre uma pequena desculpa social e uma mentira usada para prejudicar alguém.
Dizer que vai retornar uma ligação e acabar esquecendo é muito diferente de inventar uma história para enganar alguém deliberadamente.
O cotidiano está cheio dessas pequenas convenções.
“Qualquer dia desses precisamos marcar alguma coisa.”
Tradução possível: “Foi bom encontrar você, mas não tenho um plano concreto.”
“Depois a gente conversa.”
Tradução possível: “Não quero discutir isso agora.”
“Vou pensar.”
Tradução possível: “Minha resposta provavelmente é não, mas ainda não quero dizer.”
Não é exatamente diplomacia internacional.
Mas funciona.
O problema começa quando a desculpa vira hábito
Existe, porém, um limite.
Quando toda resposta é uma desculpa, as pessoas começam a perceber.
Você sempre está “chegando”.
Sempre vai “ver depois”.
Sempre “esqueceu de responder”.
Sempre está “quase terminando”.
Em algum momento, a reputação chega antes de você.
E então uma frase simples como “estou chegando” deixa de ser recebida com paciência.
A pessoa olha para o celular e pensa:
“Ele deve estar saindo de casa agora.”
Talvez a maior evolução nessa área seja aprender a falar a verdade em situações pequenas.
“Estou atrasado.”
“Não quero ir.”
“Esqueci.”
“Não sei.”
“Ainda não fiz.”
É menos elegante em algumas situações, mas economiza bastante criatividade.
No fundo, todo mundo conhece esse repertório
As pequenas mentiras do cotidiano são engraçadas justamente porque são reconhecíveis.
Não pertencem a um tipo específico de homem.
Elas aparecem na vida de praticamente qualquer pessoa.
O sujeito que diz que vai dormir cedo.
O amigo que está “chegando”.
O consumidor que entrou “só para olhar”.
A pessoa que “não está com fome” até a comida chegar.
São pequenas tentativas de negociar com o tempo, com os outros e, principalmente, consigo mesmo.
E talvez exista uma conclusão bastante simples nisso tudo: as mentiras mais engraçadas são justamente aquelas que ninguém leva muito a sério — nem quem conta, nem quem escuta.
Porque todo mundo sabe que “depois eu vejo” significa “talvez amanhã”.
“Não vou demorar” significa “não faço ideia”.
E “estou chegando” pode significar praticamente qualquer coisa, menos que a pessoa esteja realmente chegando.